No quadro de degradação ambiental a figura expoente certamente é o próprio homem, praticando essa nova relação com a natureza, de depredação em favor do consumismo, esse comensal ventripotente de mercadorias, na verdade exaurindo nossas riquezas e o Ambiente.

Manfredo Rosa,José Fantine,Belo Horizonte 24 de abril de 2019

A ESSÊNCIA HUMANA E O MEIO AMBIENTE [1]

APRESENTAÇÃO

Com início pelo menos a partir de meados do século XIX, vários pensadores famosos, atuando em diversas áreas de conhecimento, destacaram esse aumento surpreendente de disponibilidade de mercadorias e seus efeitos sobre o comportamento humano, e procuraram identificar e analisar quais as mudanças na ordem de valores, normas, crenças etc. daí decorrentes.

Mais recentemente, em especial a partir dos anos 1980, após o avanço do interesse sobre as questões ambientais, agora exercendo forte pressão política, as publicações discutem, também, os impactos sobre o Meio Ambiente e a vida na Terra, causado pelo então extravagante atual consumismo de riquezas naturais e de geração de energia, seguido das não menos espantosas montanhas, cataratas e nébulas de lixo de todos os tipos que são descartadas a cada dia nos solos, nas águas e nos ares.

As considerações abaixo apresentadas estão baseadas em destaques de percepções do livro “Vida para consumo” [2], trabalho que invoca considerações de muitos entre os autores que cuidaram do tema ao longo desse referido período dos últimos 170 anos. As citações entre parênteses são transcrições (sic). As reflexões a seguir alcançam as dimensões física, biológica e socioeconômica da complexidade do tema.

DEFINIÇÃO E CARACTERÍSTICAS DO CONSUMISMO

Se antes se praticava o “consumo”, no atendimento às necessidades inerente a vida material, cada vez mais agora a compra significa satisfação de algum desejo. E estamos dispostos a pagar mais caro conforme a credibilidade da promessa e a intensidade dessa ansiosa aspiração, da avidez da vontade. Essas excitações atuais se renovam permanentemente e os apetites não mais correspondem às necessidades do domínio doméstico, individual, mas sim às demandas geradas pela relação social. Se o que retiro da prateleira me torna bem visto no meu grupo, se compareço como atual, moderno, inserido, a aquisição cumpriu o objetivo pois que comprei as virtudes e os valores apreçados pelo mundo de hoje embora não necessariamente sejam meus. A satisfação resultante se situa principalmente na percepção de aceitação, de aplauso, pelas outras pessoas. Encrava-se aqui então uma contradição espetacular: na realidade, eu fui o objeto, eu é que sou a mercadoria, e esta, por sua vez, tomou o meu lugar, apropriou-se do meu desejo, da minha necessidade, enfim, do meu espírito, em seu favor. Passamos a praticar a compra sem vontade própria, ato para o qual cabe melhor o vocábulo “consumismo”, com definição distanciada do tradicional ato de aquisição, pois, na realidade é “um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos”.

EFEITOS COLATERAIS DO CONSUMISMO – A TERRA

Este cenário expõe a ponta do iceberg, bem visível para todos, mais recentemente exibindo partes pudendas antes ocultas. O ar irrespirável em muitas cidades, as profundas alterações sobre acidentes geográficos (em toques de varinha mares desapareceram e novas áreas desertas surgiram), a escassez de água, os milhões de toneladas de lixo de cada dia, a destruição de ecossistemas, a extinção de espécies da fauna e da flora, são os principais itens que agora compõem o passivo da maior produção, do consumo e do descarte de bens.

EFEITOS COLATERAIS DO CONSUMISMO – AS INSTITUIÇÕES SOCIAIS

– O Estado. O mercado consumista consolida um poder peculiar cada vez mais separado, distinto das instituições tradicionais. Essa nova formação social prescinde de braço executivo ou jurídico da forma como entendemos. Suas ordenações são impostas de forma velada, raramente declaradas em público e são irrevogáveis, não cabendo apelação. Nessas condições, o Estado convencional vê diminuir a cada dia sua prerrogativa de estabelecer limites, por exemplo, entre incluídos e excluídos, assim como o direito (ou o compromisso) de reabilitar de alguma forma esses últimos. Por isto que assistimos surpresos a sobrevivência da desigualdade, não obstante eventuais esforços tentados por este ou aquele executivo. Repetindo, bem se vê, míngua continuamente essa capacidade de intervenção por parte do Estado, medida na relação inversa com o crescimento da submissão à deusa mercadoria, à paixão consumista. E no compasso dessa batida outra revolução se processa: “o Estado já enfraquecido vai passando para os lados muitas de suas funções e prerrogativas.” Desta maneira, “a política, que, embora continue sendo do domínio do Estado, é cada vez mais despida de sua liberdade de manobra e de seu poder de estabelecer as regras e apitar o jogo.” Ele passa a ser um executante a serviço do mercado. Existe sim um espaço de resistência, mas ele tende a ser solapado por forças poderosas disponíveis pelo mesmo modo de produção.

– O papel da sociedade também sofre sério abalo, pois perde ela também a capacidade de desenvolver a consciência que lhe convém. O indivíduo, na sua ação isolada, se sobrepõe, reduzindo as alternativas de interação social. A noção de pátria se esvai, amortecem os sentimentos de dever diante dos semelhantes e da nação, e a convivência se reduz à frequência à carnavais, campeonatos de futebol e similares, “episódios de cotidianidade enfadonha.” O dever para com o país reside mais no uso dos cartões de crédito ao limite possível. A relação com o trabalho passa a ser igualmente distorcida. O homem consumista, é claro, sente extrema dificuldade de se integrar em equipe. No ambiente de trabalho o resultado final do esforço não ultrapassa a soma das partes. Cada um comparece para participar da solidariedade mecânica proposta por Durkheim, ou seja, para atuar pelo que dispõe de igual em relação ao grupo. Não é possível dar o passo adiante, o da solidariedade orgânica resultante da contribuição pelas diferenças, pois que são todos conduzidos por uma mesma motivação, os vínculos são estabelecidos e mediados pelo consumismo ditado pelo senhor mercado, na figura da deusa mercadoria. O indivíduo se sobrepõe ao mesmo tempo em que “as organizações se desestruturam, as instituições se deslegitimam, as expressões culturais se tornam efêmeras e os movimentos sociais recuam” segundo diagnóstico de Pedro Demo. No caminho inverso ao da democracia, cada vez o indivíduo que ser tratado de forma especial, e não normal, em sociedade.

Por causa dessas e outras mais consequências, o tecido social se enfraquece, submetido a outras vontades, não podendo, portando, se ocupar em estabelecer contratos definidores das condições necessárias à reprodução e sobrevivência no modo que deveriam entender como necessários.

EFEITOS COLATERAIS DO CONSUMISMO – O ESPÍRITO

Já foi destacado anteriormente o que consideramos ser o principal estrago causado ao homem pelo seu consumismo. Ele passa a ser coisa (se reifica), se converte em mercadoria, pois que se submete a vontades externas. Elas se apropriam do seu espírito. O fetiche do celular faz o homem se ajoelhar diante da vitrina onde ele se exibe, imponente, poderoso o suficiente para determinar a ação que lhe convém. É o mais crucial efeito porque sintetiza, abertamente, todos os demais: abrimos mão de importante parte da condição humana até então entendida como tal.

– O tempo. Outra implicação introduzida na cabeça do homem moderno consumista é a nova relação com o tempo. Boa parte da humanidade não tinha ainda adquirido a correta aquisição dessa dimensão no sentido de que há encadeamento de fatos, que existem ligações temporais entre as coisas ou, ainda, que podem, ou devem, ser estabelecidos prazos, horários e tempos de execução de atividades. Pois, sendo assim, muitos indivíduos, talvez milhões, saltaram essa fase e se ajuntaram aos bilhões que agora se relacionam com um tempo “pontilhado”, de momentos de prazer, de eventos, de incidentes (e aventuras) fragmentados, sem relação entre si. “A vida, seja individual ou social, é uma coleção de instantes experimentados com intensidades variadas”. Cada átimo flagrante tem identidade e direito próprios, sem conexão com os demais. “A síndrome consumista degradou a duração e elevou-a à efemeridade, ela ergue o valor da novidade acima do valor da permanência.”

Não é difícil avaliar o estrago social que isto representa. Nessa “realidade” pontilhista, os indicadores de bem-estar adquirem sinal contrário dos tradicionais. A quantidade de abortos e a mortalidade infantil das esperanças devem ser as mais elevadas. Quanto maior, melhor, assim como a mais baixa possível deve ser a expectativa de vida de cada ansiedade. A bandeira “cliente satisfeito” é uma balela, pois que, na verdade, o deve ser só momentaneamente. Logo em seguida, o mais rápido possível, ele deve se sentir ansioso por alguma outra coisa, retomando ao consumismo.

No mundo dos pixels saltitantes, sem conexão, os planos deixam de ser propostas desejáveis, no sentido de se traçar algum rumo, atingir um objetivo. Para a consciência consumista atual, o futuro se dissolve, pois se prostra diante do “agora”. E é um “já”, urgente, com prazo de validade, se não for de pronto, imediato, poderá ser visto como de um perdedor, um derrotado, um insensato e, acima de tudo, um indesejável. Resulta daí que ao invés de se definir um porto qualquer para se chegar com o navio, navega-se ao sabor do farol que apresentar a luz mais forte no momento. O pequeno e modesto vidro da bússola se metamorfoseou no custoso “blindex” da vistosa vitrine.

Outra percepção cruel possível pelo menos é bem-humorada. Essa nova relação com o tempo, desconectada, dá a cada momento a sua existência única. Já vimos. Mas, curioso é que resulta daí a sensação de que se está começando novamente, que se adquire a facilidade de renascer. Assim, agora, não são somente os gatos que podem contar sete vidas. Os homens multiplicaram isto, sete vezes sete.

– O descarte do obsoleto. A Mattel teria lançado uma promoção pela qual a criança poderia comprar sua nova Barbie desde que trouxesse a sua “usada” para oferecer como troca. Melhor que comentar, é sugerir que cada um faça um exercício de empatia e imagine, tanto quanto possível, que valor é gerado na mente da criança ao poder dispor de algo que tanto significara para ela, que fizera parte da sua vida. A síntese está em Arlie Russel quando aponta como principal efeito desse atoleiro consumista: a materialização do amor. Foi isto que a criança praticou ao trocar a sua boneca por outra de instante pontuado (e festejado). Ao fazer isto ela desconecta parte de sua existência. Os conteúdos dos programas infantis, bem se vê, são orientados em favor da insaciável sede de compra.

Nesses tempos de consumismo, seguindo desta maneira, avalia-se a atividade econômica não mais pela quantidade bens que é produzida, mas, sim, pelo montante que é jogado fora. Tanto melhor quanto mais curto for o tempo decorrido desde a exposição na prateleira até à deposição no lixo. As tônicas são, a velocidade, o excesso e o desperdício.

Essa sucessão de desejos nunca satisfeitos, da renovação de vontades, da morte prematura de necessidades, ressuscita o antigo e popular conselho-advertência para quem estivesse pensando em criar porcos: essa atividade envolve duas alegrias, a da compra dos animais e instalações e a da venda de liquidação. Assim também o consumista experimenta dois regozijos, o da aquisição e o do descarte daquilo que teve data de validade vencida.

Nessas condições, tomado pelo fetiche da mercadoria que me impõe o fascínio da nova compra e, portanto, determina que eu devo jogar fora tudo o mais rápido possível, inevitavelmente eu transfiro para outros espaços essa soberania do descarte, passando pelo solo, água e ar até chegar a valores, virtudes e pessoas.

Para os novos bichanos, com seu tempo de vida ampliado e multiplicado, nova família, nova carreira, nova plástica, nova identidade de hoje são momentos que precedem outros que estão por vir.

– A irracionalidade. Essa implicação, de carência de juízo, de prudência, é um corolário da sequela anterior. “Além de ser um excesso e um desperdício econômico, o consumismo também é, por esta razão, uma economia do engano. Ele aposta na irracionalidade dos consumidores e não em suas estimativas sóbrias e bem informadas. Ele estimula emoções consumistas e não cultiva a razão”. É, claramente, uma lógica ludibriosa, bem cuidada, desenvolvida e divulgada por profissionais de altíssima competência, apoiados em conhecimentos avançadíssimos. Da mesma maneira, inevitavelmente, ocorrerão metástases do mesmo tipo em outras oportunidades de comportamento. Destituído da capacidade de pensar por si mesmo, o homem consumista passa, assim, a ser vítima fácil de maquinações de outros tipos.

– O “libera geral”. Nos últimos tempos em especial, frequentemente somos tomados de indignada surpresa diante da mudança de comportamento e prática de valores das pessoas em geral, afastados que estão dos padrões até entendidos como normais, esperados. Claro, o egoísmo do consumista não poderia se submeter facilmente a muitas regras. “Parcelas cada vez maiores da conduta humana têm sido liberadas da padronização, da supervisão, do policiamento explicitamente sociais, relegando um conjunto crescente de responsabilidades, antes socializadas, ao encargo dos indivíduos.” Quando se discute a razão dos desvios atuais e se clama pelo retorno aos valores familiares tradicionais, primeiramente se deveria pensar sobre as profundas raízes do consumismo do “simultâneo definhamento da solidariedade social nos locais de trabalho e do desaparecimento do impulso de cuidar-compartilhar, dentro dos lares.” Como assinalou Pierre Bourdieu… a coerção tem sido amplamente substituída pela estimulação; os padrões de conduta antes obrigatórios, pela sedução; o policiamento de comportamento, pela publicidade e pelas relações públicas; e a regulação normativa, pela incitação de novos desejos e novas necessidades.”

CONCLUSÃO

E encontra-se assim o homem moderno, desumanizado pela exploração do sistema atual de reprodução da vida. Viciado na incessante busca do prazer, na inatingível satisfação de seus desejos porque sempre renovados, paradoxalmente ele se torna o indivíduo melancólico, porque embora conectado com infinidade de momentos, ele não consegue se conectar com coisa alguma. O consumismo é uma atividade solitária, mesmo quando é feita em companhia de alguém. Essa legião de prateleiras lotadas de mercadorias expõe acintosamente uma incoerência já apontada por Alain Ehrenberg, para quem os sofrimentos mais comuns nos dias de hoje tendem a se desenvolver pelo excesso de possibilidades e não de uma profusão de proibições como ocorria no passado.

A vida está enfraquecida, fragmentada quanto aos vínculos humanos. Faz imperar o já tão anunciado triunfo do indivíduo. Para ele, as principais ocupações são, ir ao shopping para compras pessoais, comer fora, exercitar o “faça-você-mesmo” (sozinho, solitário), assistir TV. No fim da lista das preferências encontra-se a ida a uma reunião política, precedida pela vontade de assistir a um espetáculo no circo. Os prejuízos daí advindos são incalculáveis. Eu sozinho sou mais facilmente dominado, orientado, projetado. “A possibilidade de povoar o mundo com gente mais afetuosa e induzir as pessoas a terem mais afeto não figura nos panoramas pintados pela utopia consumista”. Muito menos privilegiar a vigência da solidariedade e da justiça, virtudes que, por excelência, somente podem se desenvolver no terreno fértil da convivência intensa do grupo social.

Certamente que este não deve ser, não precisa ser e não é o fim da história. O homo sapiens não deve estar satisfeito. Uma afirmação podemos apresentar em alto e bom som sem nenhum medo de errar: nós haveremos de conseguir ser muito mais que isto. Há de prevalecer o fomento à consciência crítica, racional, em dúvida permanente, do desenvolvimento e fortalecimento da sociedade organizada e do incremento de intervenções alternativas e mesmo de confronto onde possível.

Melhor assim, que seja, pois que se não reconduzirmos o rumo por vontade própria, segundo um projeto ambiental que nos convém, então, “por mal”, seremos obrigados a fazê-lo já que o nosso lar, o Planeta, não atenderá por muito mais tempo essa insaciável e furiosa voragem de gastos. E mais, se a mudança se der por esta via, da imposição obsidional, preparemo-nos para o que talvez seja o tempo de maior infelicidade que já se viu na face da velha e boa mãe Terra.

Melhor assim, outra vez, que seja, pois que se não poderá se cumprir a profecia de Günther Anders que, em lampejo de visão, vaticinou não ser “impossível que nós, que fabricamos esses produtos estejamos a ponto de criar um mundo cuja velocidade não possamos acompanhar e que vai exceder por completo nosso poder de compreensão, nossa imaginação e nossa resistência emocional, assim como estará além da capacidade de nossa responsabilidade.”

Melhor assim, mais outra vez, que seja, antes que a aguda contradição do atual e injusto sistema de produção e consumismo nos encaminhe para um novo holocausto, o mais global, o mais terrível entre as dezenas de sacrifícios em massa que a humanidade já perpetrou até hoje, qual seja, o do extermínio da espécie

  1. Este artigo também circula conjuntamente com o trabalho “Meio Ambiente e Sustentabilidade” dos mesmos autores, complementando-o e é nele citado.

  2. Bauman, Zygmunt, Vida para o consumo – A transformação das pessoas em mercadorias – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008

Posted by brasil2049

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *