Autor Manfredo Rosa

Concluí a leitura do muito interessante livro acima citado. Alcançar 33 edições diferencia a obra. Sandel, filósofo, professor, discorre sobre o tema Justiça de maneira agradável. Escolheu meia dúzia de pensadores e, através de “cases” reais, mais ou menos recentes e, envolvendo dilemas morais, discute qual seria a aplicação de cada uma das abordagens. Maior destaque para Aristóteles, Kant e Rawls, com passagem por Rousseau, Locke e Friedman. (A apresentação do “inaccessível” Kant é ótima. Preservando o rigor teórico, consegue fazer entender razoavelmente bem a moralidade para aquele tão importante filósofo, com sua “pura razão prática”. Muito bom. É citada também outra frase lapidar do grande Rousseau: “O trabalho forçado é menos contrário à liberdade que os impostos”).

Em resumo, o autor privilegia um modelo no qual apresenta três alternativas, três vias, de se fazer a coisa certa. Instaurar justiça seria procurar fazer prevalecer:

1.   O que traz a máxima felicidade para o maior número de pessoas (Utilitarista) ou,

2.   O que parte do consentimento, respeitar a liberdade de escolha (Libertário) ou,

3.   O que parte de direitos e deveres, da promoção da equidade. (Cultivo das virtudes).

Alguns dilemas discutidos: recrutamento militar, barriga de aluguel, aborto, doação de órgãos, suicídio voluntário, salário de ás do basquete (33 milhões de dólares), casamento entre pessoas do mesmo sexo, briga de galo, ou touradas, menina chefe de torcida cadeirante, entre outros.

A leitura do livro enseja indagações, como qual seria nossa percepção pessoal. Você leitor, se for necessário escolher, qual seria a sua opção? Na ideia da primeira se encontra Stuart Mill. Da segunda, Rousseau, Kant, Rawls e Friedman, com ressalvas específicas. E na terceira, talvez Locke e o autor.

São apresentados também alguns “cases” insólitos, divertidos. Por exemplo, o da pesquisa feita por Thorndike, em 1930 junto a jovens. “Quanto você cobraria para: 1 – extrair um dente da frente seu; 2 – cortar o dedo mindinho de um pé; 3 – comer uma minhoca de 15 centímetros; 4 – estrangular um gato vira-latas com as próprias mãos e 5 – viver o resto da vida em uma fazenda remota no Kansas. (Colocar preço para cada um). A média geral final resultou em uma hierarquia das “preferências” algo surpreendente para nós. Mas o que o pesquisador queria provar era a ideia de poder existir uma escala de medida, uma forma de avaliar objetivamente variáveis não físicas.

No fechamento do seu trabalho, Sandel, explica porque entende que a melhor alternativa é a da prática das virtudes. Apontando que “a desigualdade social corrói a virtude cívica”, reconhece, também, ser “um desafio imaginar uma política que leve a sério as questões morais e espirituais, mas aplicando-as a interesses econômicos e cívicos, e não apenas a sexo e aborto”.

Ao final, relaciona indicativos para alcançar justiça em uma sociedade:

1.   Cidadania, sacrifício e serviço. Dedicação ao bem comum, cultivar a virtude cívica, a solidariedade e o sentimento de responsabilidade;

2.   Limites morais dos mercados. Quais seriam as normas não dependentes do mercado e que nos protejam dele? (Observado que as práticas sociais são comercializadas, corrompendo ou degradando as normas que as definem);

3.   Desigualdade, solidariedade e virtude cívica. A desigualdade social separa as pessoas, esvazia o espaço público, da convivência, prejudicando a solidariedade e o senso de comunidade necessários à cidadania democrática;

4.   Uma política de comprometimento moral, com base no respeito mútuo, já que, ao evitar debater as divergências morais, na verdade, estaríamos suprimindo-as. “Uma política de engajamento moral não é apenas um ideal mais inspirador do que uma política de esquiva do debate. Ela é, também, uma base mais promissora para uma sociedade justa.”

Referências

Livro; JUSTIÇA. O que é fazer a coisa certa; Michael J. Sandel, 33ª Ed. Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2020.

Comentários sobre o Artigo “30 obras escolhidas da década 2011-2020” https://brasil2049.com/30-obras-escolhidas-da-decada-2011-2020-tentando-entender-o-mundo-e/

Posted by Brasil 2049

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